quarta-feira, 23 de março de 2016

Um dos poderes da religião

A questão árabe na Europa não tem solução nada clara (haverá quem me diga que politicamente correcto seria dizer «terrorista» e não «árabe»; mas já veremos porque não faço a dissociação).

Levanta uma questão. Há vários grupos étnicos extra-europeus na Europa; uns estão integrados, outros não. Mas, salvo erro, o único que forma revoltas armadas é o árabe. Porquê?

Creio que a explicação é, pelo menos em parte, a seguinte. Desde há pelo menos 30 anos que há árabes na Europa a afirmar que é preciso atacar os europeus (precisamente na Bélgica, a convite de um amigo árabe, tinha eu 25 anos, encontrei-me, num café, com um grupo de extremistas árabes. A questão não era religiosa, era simplesmente cultural: «tu deves morrer porque és europeu», foi-me dito com ódio no olhar).

Presumo que esse ódio exista também em comunidades africanas, talvez outras. Mas porque é que são os árabes a fazer os atentados?

Porque a religião lhes serve de fundamentação, porque a guerra santa vem no Corão. Bem sei que o Corão não diz só isso, que se pode pretender que é uma religião de paz (isto daria muito que comentar – é uma religião de paz depois da conquista total do mundo). Mas também diz isso. Importa perceber que não estou a criticar a religião islâmica. O que estou a dizer é que a religião —qualquer religião— tem um poder de união que nada mais tem.

E isso porque a religião, por definição, não se discute, está acima do indivíduo. E estando acima de cada indivíduo pode unir todos os indivíduos.

Parece absurdo a um espírito racionalista. Mas não deixa de parecer ser verdade.

Do ódio ao próximo ao amor do outro



  1. Há pessoas que não gostam das condições em que vivem. Chamemos­-lhes «descontentes». Encontram um bode expiatório nos outros, que acham serem os causadores da angústia que os descontentes sentem; e passam assim a odiar o próximo e, logo a seguir, a odiar as pessoas em geral.
  2. Para justificar um sentimento tão mal-visto, os descontentes generalizam esse ódio ao próximo e às pessoas na fórmula, aceitável, «condenar a sociedade» («a culpa é dos burgueses, dos judeus, dos comunistas, dos americanos», etc.)
  3. Ao mesmo tempo que desenvolvem ódio ao próximo, e ainda para se justificar, os descontentes inventam um «homem ideal», não «corrompido pela sociedade», homem esse que podem amar. Rousseau tornou essa ideia popular com o «bom selvagem».
  4. No nosso tempo, esse «bom selvagem» é qualquer pessoa, qualquer cultura que não seja ocidental. É aquilo a que podemos chamar «o outro». Atenção, que «o outro» (idealização) é diferente de «o próximo» (pessoas que se conhecem de facto).
  5. Esperar-se-ia que, quando «o outro» se revela ameaçador, as ilusões desaparecessem. Mas se o ódio ao próximo for suficientemente violento não será assim. Nesse caso, o descontente, ao ver um «outro» atacar o «próximo», identificar-se-á com o outro: afinal, tal como o descontente, o outro ataca o próximo e odeia-o.